SEÇOES
   PRINCIPAL
   A CIDADE
   DIVERSOS
   GERAIS
   POLÍTICA
   REGIÃO
 
PARCEIROS
 
 
 
Ano 6 - Número 144
São João del-Rei, 1º quinzena de fevereiro de 2010
Documento sem título
  Versão para impressão        Enviar para um amigo
 
O cronista vai à escola
CRÔNICA
  Naquela manhã, o cronista acordou apavorado. Tinha sido convidado por uma escola para falar sobre o ofício da crônica. A situação estava crônica, pois o cronista acordou em branco. Levantou-se, barbeou-se, banhou-se, alimentou-se... e a falta do que falar instalou-se. Tentou ensaiar uma frase: entalou-se.
  Acabou indo com a cara e a coragem, uma se escondendo atrás da outra. Sentia inveja dos diálogos modestos, sem hora marcada... dos assuntos espontâneos, sem plateia para avaliar. Um simples marido que diz à esposa: Estou indo. Te vejo mais tarde. Um beijo. Ou ainda um mero freguês num boteco: Me dê aquele pastel ali e uma coca. Coisas assim, descompromissadas com as expectativas de quem vai ouvir. Falar dentro do fluxo enunciativo das situações, sem precisar medir palavras nem burilar frases, pois elas já estão de um certo modo inscritas na previsibilidade das circunstâncias.
  O cronista... um eu angustiado... um eu comprometido... eu...
   Cheguei à escola. Uma professora jovem me esperava no portão e a ela se juntaram mais três, uma delas a diretora. Fui recebido como papa e conduzido como doente quando chega ao hospital. Uma ofereceu água, outra café, uma outra uns salgadinhos e a última me apontou o sanitário.
Como tem passado? Chegou bem? Muito trabalho? A gente está atrapalhando a agenda do senhor? Posso chamá-lo de você?... Por fim, deu-se por findada a saraivada de perguntas e o pequeno grupo se encaminhou para um salão onde estavam alunos, pais, professores e convidados. Caminhava cabisbaixo, atrás das quatro mulheres, como um condenado caminha em direção ao patíbulo.
   – Senhoras, senhores, queridos alunos e alunas, aqui está o cronista!
   Silêncio total. Olhares atentos e curiosos me desnudavam a alma. O cronista à frente de todos e todos olhando quietos e sérios. Senti-me como um pássaro dodó, que veio lá dos barrancos da pré-história para testemunhar a audácia de uma longevidade absurda.
  – A palavra é sua, cronista.
   Jamais recebi a palavra como sendo minha. Quando escrevo, sempre sei que a palavra não é minha e nunca será. A palavra pertence ao fluido da leitura de cada um e ao fluxo do tempo. A palavra é sua! O que fazer com uma coisa que não é minha?
   Entabulei umas frases, costurei umas ideias e bordei uns argumentos, de modo que o tecido construído acabou instruindo e emocionando. Aplausos me deixaram menor ainda, pois eu sabia que não os merecia.
  – Alguém quer perguntar alguma coisa ao cronista? Aproveita, gente!
  O cronista teve ímpetos de voar no pescoço da diretora, mas teve que se conter para responder às perguntas de alguns braços erguidos. E vem pergunta dali, vem pergunta daqui, todas em torno do ato de escrever, sobre a melhor crônica que ele fez, sobre onde ele escreve... Até que uma aluna, das maiores e talvez da última série, sentada de lado, um olhar de abril florido, perguntou com um suave abismo na voz:
  – É verdade que você tem muitos amores?
  Mais sem jeito do que pastor evangélico em escola de samba, respondi que não era bem assim... que amava as pessoas... amava a vida... que a musa é a pessoa escolhida pelo coração quando ele pressente que vai morrer para viver translúcido de arte. Tentei ser mais profundo que um prato raso. E a menina continuava a me olhar, sorrindo de lado, sem abrir os lábios. Os olhos desabrocharam-se numa primavera úmida.
  Fim de papo, troca de agradecimentos, rasgações de seda e o cronista voltou sem comitiva para o portão. Sabia o caminho. Foi aí que alguém me tocou o ombro: era a jovem do olhar florido e sorriso sorrateiramente cálido. Ansiosa e arfando, pois vinha correndo, entregou-me um papelzinho:
  – Esse é o meu e-mail. Escreva uma crônica para mim. Nunca fui musa de ninguém. Quando estiver pronta, envie para mim.
  E foi embora, enxugando o orvalho que pingava de seus olhos de flores de abril, correndo de volta para o lugar de onde veio.
  Pois é, cheguei como papa, entrei como doente, caminhei como condenado, posei como pássaro dodó e recebi o carinho de uma menina que dá dó. Nunca mais a vi. Na verdade, perdi seu e-mail. Porém guardei seu olhar de abril e seu sorriso de lado ocupou todos os lados do meu coração.
  Aí está a crônica, ó musa que sempre foste musa, mas que te tornaste nuvem para que minha palavra se tornasse vento à procura de tua viagem no céu e assim eternizá-la no papel.
 
...::: Outras matérias deste caderno :::...
- EDITORIAL
- RÁPIDAS
- Roubo de nióbio - Empresário está sendo investigado pela Polícia
- PM apreende 94 pedras de crack no Bairro Araçá
COLUNISTAS
        Ancil Souza Filho
        José Antônio
        Zé Torquato
        Faro Fino
        Colaboradores
CAPA
ED. ANTERIORES
ANO:
  
MES:
  
QUINZ.:
  
 
© Copyright 2009. Folha das Vertentes
Desenvolvimento e Administração: Mapa de Minas